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Imagem post 24 maio

O uso de marcadores biológicos para diagnóstico e detecção da progressão de esclerose múltipla

Os Biomarcadores são substâncias do nosso sistema biológico que podem ser identificadas e quantificadas em exames laboratoriais, como os de sangue, urina e líquido cefalorraquidiano (LCR)servindo como diagnóstico ou de indicadores da nossa condição de saúde.

Além de auxiliar no diagnóstico, os marcadores biológicos podem também prever o agravamento e a progressão de algumas doenças crônicas autoimunes, como a esclerose múltipla (EM). Estimar o agravamento do quadro de EM é um passo importante, pois nos permite estabelecer precocemente um tratamento seguro e efetivo que desacelere tanto a progressão da doença quanto a extensão de seus danos.

Certos medicamentos indicados para quadros mais ativos (com incapacidades e disfunção cognitiva estão relacionados com maiores riscos e efeitos colaterais, não sendo recomendados para pacientes comprovadamente com baixa possibilidade de complicação. Portanto, o uso de biomarcadores aumenta consideravelmente a assertividade do diagnóstico e da capacidade do médico em definir a evolução futura (prognóstico). 

Dentre uma gama de marcadores biológicos utilizados em exames, alguns têm obtido maior embasamento científico em suas utilizações. Você será apresentado a eles a seguir:

Bandas Oligoclonais (BOC)

A pesquisa de bandas Oligoclonais (BOC) é um exame muito requisitado para o diagnóstico da esclerose múltipla. Elas são realizadas a partir de amostras de líquor.

De acordo com a análise quantitativa dessas bandas, altos valores de BOC estão relacionados a maiores chances de lesão no córtex e desenvolvimento de incapacidade, além de sugerir uma progressão da esclerose múltipla remitente para a esclerose múltipla progressiva secundária.

Cadeias leves livres do tipo kappa

Alguns estudos têm demonstrado que a dosagem das cadeias leves livres do tipo Kappa, e o cálculo de seu respectivo índice (índice Kappa), podem ser uma boa opção de diagnóstico para a EM, como mencionamos previamente em outro post sobre o tema, pois complementa a pesquisa de BOC, quando estas são negativas. Sua alta concentração pode estar associada a maior gravidade, antevendo a ocorrência de incapacidade.

Neurofilamentos

Os neurofilamentos, identificados em certas doenças que acometem o sistema nervoso, são detectados quando há agravamento rápido da EM e possibilidade de evolução para um quadro de esclerose múltipla progressiva secundária. Esse biomarcador prevê também processos de neurodegeneração e alteração no volume cerebral.

Os neurofilamentos de cadeia leve podem ser identificados e dosados tanto por amostras de sangue quando de líquido cefalorraquidiano, possuindo boa sensibilidade. Este teste está em fase de pesquisas e ainda não se encontra disponível em nosso meio para uso clínico no dia a dia.

Imunoglobulinas (anticorpos)

A Dosagem das imunoglobulinas IgG e IgM no líquor pode ser uma boa ferramenta para identificar o agravamento da esclerose múltipla. Apesar de não ser um biomarcador tão sensível como a BOC, a IgG pode ser encontrada no líquido cefalorraquidiano de grande parte dos pacientes com EM.

A identificação de bandas oligoclonais IgM se mostrou ainda mais eficaz que a identificação de bandas oligoclonais IgG para predizer a reincidência da EM e o aumento de lesões agudas ou processos inflamatórios no cérebro.

Proteína Ácida Fibrilar da Glia (PAFG)

Outro marcador biológico promissor encontrado no líquor é a Proteína ácida fibrilar da glia (PAFG). Elas são provenientes de células da glia, células que dão apoio aos neurônios, após processo inflamatório no sistema nervoso. Sua concentração se relaciona à severidade da esclerose múltipla e a quadros de maior dificuldade motora. Ainda não está disponível para uso clínico, assim como os neurofilamentos.

YKL-40

A YKL-40 é uma glicoproteína produzida também por células da glia. É encontrada em altas concentrações no líquor de pacientes que transacionam da Síndrome Clinicamente Isolada para a esclerose múltipla. Dosagens elevadas também se relacionam a lesões agudas e processos inflamatórios no cérebro.

Citocina CXCL13

A citocina CXCL13 é considerada um potencial biomarcador encontrado no líquido cefalorraquidiano durante processos inflamatórios do sistema nervoso. Sua alta dosagem indica uma síndrome clinicamente isolada (CIS) com maior risco de evolução para a EM (ou uma esclerose múltipla com maior possibilidade de agravamento). Ainda em fase de pesquisa.

CONCLUSÕES SOBRE A UTILIZAÇÃO DE BIOMARCADORES

A maior parte das pesquisas, feitas até aqui, encontrou correlação com pior evolução a presença de número maior de bandas oligoclonais (BOC), índices elevados de cadeias leves livres do tipo kappa e imunoglobulinas IgG. Nos casos de neurodegeneração e progressão clínica, os achados mais comuns foram os marcadores biológicos de células da glia: YKL-40 e neurofilamentos.

Mesmo que, individualmente, a detecção desses biomarcadores seja de grande auxílio, é extremamente recomendável que a avaliação da doença seja feita pelo conjunto deles, aliados aos achados clínicos e exames de imagem.

No geral, a avaliação dos marcadores biológicos pode ser uma ferramenta útil para se determinar a gravidade da esclerose múltipla e prever situações de progressão. Auxiliarão, assim, o estabelecimento de terapia eficiente e segura de acordo com as reais necessidades do paciente.

Referência

MAGLIOZZI, R; CROSS, H. A. Can CSF biomarkers predict future MS disease activity and severity?. Multiple Sclerosis Journal. 26(5), 582–590. 2020 Acesso em: https://doi.org/10.1177/1352458519871818

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Avaliação do Artigo

Neurologista e pesquisador do Centro de Investigação de Esclerose Múltipla da Universidade Federal de Minas Gerais (CIEM-UFMG). Possui Doutorado em Medicina pela UFMG, com ênfase em Esclerose Múltipla.


Doutorado em Ciências (Neurologia) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É atualmente Professor Adjunto do curso de Medicina da Escola Bahiana de Medicina. Em sua formação possui Pós-graduação em Nutrologia pela ABRAN. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia.

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